Laura que me perdoe, mas não dá para deixar de fazer o registro.
Ontem, antes de ir encontrar com o pessoal na Pizzaria Speranza, Moema, e terminei indo tarde, cheguei lá mais de dez e meia, estava trabalhando em uns textos aqui no escritório, entra mensagem via googletalk, me agradecendo a lembrança pelo aniversário. A identificação do interlocutor era meio misteriosa: "Guarde". Como envio congratulações sempre para todo mundo das listas do orkut e do plaxo e do meu outlook, quando tem a data de aniversário, dei uma olhada nos contacts para ver quem era. O id não era apenas "Guarde", era "Guarde as armas... Sou seu amigo". Isso promete, pensei com meus zíperes.
Cliquei no endereço e reconheci: Dyógenes, um rapaz lá de Nazaré da Mata, zona da mata norte de Pernambuco músico, participante de uma banda chamada Ticuqueiros (por lá, chamam ticuqueiros aos cortadores de cana), com quem Laura, minha filha, namorou algum tempo atrás, um tempo que passou em Recife e pelo interior de Pernambuco, pesquisando e gravando grupos de lá. Eu cheguei a conhecê-lo, acho que veio aqui em casa, um caboclo moreno simpático mas sem muito a ver com a Laura, em minha opinião. Mantivemos o contato esse tempo via mensagens esporádicas no orkut. Respondi então o seu agradecimento com um não por isso. Aí, ele soltou a pergunta: o senhor é pessoa física?
Daí em diante, enveredamos por um papo muito surrealista, ele queria saber mesmo era se eu era pessoa jurídica, se tinha um cnpj, ensaiou até pedir ajuda para o registro de projetos, mas eu consegui desviar a conversa para ângulos menos perigosos. Ou pensei ter conseguido, porque aí ele começa a falar da Laura, que ela teria saído de casa, eu confirmei, e aí perguntou se eu tinha um minuto, que queria me explicar porque afinal os dois não tinham dado certo. Opa. Sinal amarelo. Delicadamente (ou não, sei lá), disse a ele, que o assunto interessava apenas a ele e ela, inclua-me fora dessa, era o recado implícito. Mas ele insistiu, o sinal já passando pelo laranja, o vermelho na frente crescendo. "Mas é que uma parte tem a ver com o senhor. Não quer saber?" E eu, "pra falar a verdade, não". E ele encerra, quase graciosamente, com um "poxa".
Eu mereço, não é verdade? Laura também. Mas a história não termina aí. É que eu a contei na pizzaria. E a Maura e a Rosa ficaram furiosas porque eu não quis saber a tal da parte que tinha a ver comigo. Vamos combinar o seguinte, madames: liguem pra Laura e ela conta a vocês. Beijo.
A verdade? Este grupo não existiria se não fosse o Reynolds. Como até o mundo mineral a essa altura sabe, o grupo teve geração espontânea em 1983, quando alguns pais do Viva Vida resolveram encenar “pecinhas” para os seus filhos. Da troupe original, estão conosco Maura e Rosa (Victor também, é verdade, mas ele só integrou-se de fato ao grupo anos depois). Elas podem contar melhor o processo de criação, mas certamente o Reynolds foi fundamental. Ele era entusiasmo puro naquele período.
Eu entrei no ano seguinte e demorei pouco para entender que já havia uma divisão clara. De um lado, o grupo liderado pelo Reynolds. Do outro... Não importa, já falei aqui uma outra vez que provavelmente os dissidentes tinham razão, que a gente não tinha nada que continuar naquele esforço semanal insano. Terminaram deixando o grupo embora, tão humanamente quanto possível, tentassem convencer os demais a terminar de uma vez com a aventura. E aí foi quando o Reynolds pontificou soberano. Segurou a barra, enfrentou tudo e todos, e manteve-nos juntos. Olhando para trás, confesso que era apaixonado pelo gordo, pelo seu entusiasmo, seu humor grosseiro. Pena que tudo isso se tenha ido há tanto.
Sem essa luta do Reynolds, o grupo teria acabado em 85, 86 no máximo, e não teríamos encontrado Renato, Ricardo, Eunice. Eu, pelo menos, não teria encontrado: quando o Viva mudou-se para a Diogo de Faria, restava-me apenas a Lia como filha-aluna, e ela não estudava com o filho de nenhum dos supracitados. Talvez chegássemos a ser apresentados. Talvez. Mas jamais teríamos a convivência que gerou as histórias do Grupo e a minha paixão (hoje estou com a necessidade quase suicida de confessar-me) por esse pessoal todo e por cada um deles em particular.
Restam lembranças, o carinho enorme, e essa foto dos dois ovos fritos. Piéce-de-resistance da terça passada, quando fomos para o Miguel beber o Reynolds. Estavam incrivelmente deliciosos, como que também homenageando o Reynoldinho. Quem fez o registro foi o Renato, com seu indefectível celular.
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