Eu não esperava isso de você, caos aéreo - a experiência do Luís Nassif

(vou me permitir republicar aqui um post que o Nassif colocou no site dele - http://www.projetobr.com.br/blog/5.html - em homenagem ao Ricardo e à Tob Tour, e também porque dá uma colocada em perspectiva no tal do caos aéreo)

Meu nome é Argerico

Admito que sou um cara distraído. Ou melhor, concentro minha atenção em algumas coisas e me desligo do resto. Por isso não olhei a agenda, quando cheguei no aeroporto de Florianópolis. Fui direto ao balcão da TAM, apresentei cartão, identidade. A mocinha anotou tudo, perguntou se eu gostaria de janela ou corredor, e me deu o cartão de embarque.

Já tinha dispensado a carona da Ruiva, porque o embarque seria em Congonhas. Fiquei fazendo hora, das 2 até 3 e meia. Até deu para atender a um chamado da Infraero, informando que no seu balcão tinha o telefone da nossa comentarista, a Marise.

Aí vou para a sala de embarque, assisto a um embarque da Gol, embarco no vôo seguinte, um avião com bancos apertadíssimo. E só quando o comandante anuncia o vôo fico sabendo que vou desembarcar em Guarulhos.

Antes do vôo sair, ainda aparece um funcionário da TAM, pergunta meu nome, eu digo, ele diz que não é nada não e vai embora

Já estava bronqueado com a secretaria. Abro a pasta e pego a agenda: vôo Gol para Congonhas. Ué, então como consegui a TAM? Será que eu tinha passagens não utilizadas?

Chego a Cumbica. Meia hora para saber onde é a esteira. Quando encontro (por informação de outros passageiros, porque o monitor estava quebrado e, como de costume, não havia um funcionário da Infraero ou das companhias para informar), fico esperando. Um a um os passageiros vão tirando suas bagagens. Passa uma mala igual à minha. Pego, olho no cartão, era do Agerico. E eu não me chamo Argerico.

A esteira vai esvaziando, até que sobra só minha mala. Pego: é do Agerico, e eu não me chamo Argerico. Aí dá um estalo, pego o cartão de embarque e está lá, definitivo, insofismável: eu sou o Argerico. Por isso o funcionário da TAM perguntou o meu nome e disse que tudo bem. Ele estava procurando o Argerico e eu disse que me chamava Luís.

Escrevo agora, em um táxi num baita congestionamento da Dutra. E chego à conclusão de que a Infraero é uma droga, as companhias aéreas são uma droga. Mas que minha distração é droga maior.

Eu também não esperava isso
Adiei, adiei, mas o post do Renato finalmente tornou inevitável o elogio fúnebre do cão. Aliás, elogiá-lo só postumamente mesmo. Tantas vezes me veio a gana de matá-lo. Sério. E no final lá estava eu, às lágrimas, depois de Clarice ligar e dizer que não tinha jeito, teria que ser sacrificado. Era da família, o sentimento é claro agora. Difícil ainda conviver com o vazio de sua importuna presença, sua carência monumental que expressava destruindo tudo o que ficava ao alcance quando dávamos uma saidinha, ou mijando pela casa toda quando baixávamos a guarda. Uma peste, mas uma peste que amávamos afinal. Como disse bem o Renato, o Grupo conviveu com ele todos os momentos, desde que avisei que ia comprar um cachorro para dar de presente ao Gabriel, meu neto, e que ele pedira um boxer. Todos, acho que todos, foram contra, ele iria aprontar, predisseram. E aprontou, como aprontou. Porque era uma peste, e também porque era meio azarado, as coisas teimavam em acontecer com ele. Logo cedo, acho que não estava há nem um mês em casa, de repente entra minha cunhada e fala que ele estava estranho, minhas filhas e meu neto brincavam com ele na frente de casa, e realmente olho o cão e ele está inchando, corro até o hospital onde chegou já praticamente sem conseguir respirar, reação alérgica a uma abelha. Foi algumas vezes a esse hospital, que fica na esquina da Ottonis com a Sena. Odiava esse lugar e as pessoas que trabalhavam lá, eu passava em frente com ele nos passeios a que se referiu o Renato, o pelo eriçava, ele ameaçava invadir, morder quem quer que estivesse de branco, adivinhava talvez que seria sacrificado lá? Era grande, o maior boxer que eu já vi (e, pelo menos nos documentos, era boxer mesmo, com pedigree e tudo), mas era um bundão, sempre que se meteu em alguma briga levava a pior, isso sem contar que se deixava prazeirosamente morder por cachorros pequenos, quando passávamos em frente de uma casa que fica na esquina da Uruana com a Mário Cardim sua diversão era colocar a cara na grade para o cachorrinho da tal casa morder-lhe as bochechas. Uma vez adormeci enquanto brincava com ele, dando-lhe chutes, ele adorava brincadeiras brutas - quando acordei, ele havia destruído as botas timberland que eu calçava. E às vezes passava dias tentando dormir dentro de casa e não nos deixava dormir. Era nessas ocasiões que eu ameaçava matá-lo. A sério. Tinha 9 anos e meio, não era velho portanto, mas decaiu de repente nos últimos dois ou três meses, e inchou muito, e fazia muito um xixi quase transparente, e não queria mais passear, Clarice levou-o em uma veterinária que achava que ele tinha problemas na bexiga e lhe deu remédios homeopáticos, vejam se podem, mas ele até que reagia bem, ficava melhor durante um pouco de tempo, depois voltava a ficar pelos cantos, até que ficou realmente mal e levamos ao hospital. Pedras nos rins, foi o diagnóstico preliminar, mas fez exames e voltou para casa. Era sexta, no sábado piorou muito, não conseguia mais ficar de pé e arrastava as patas traseiras. Sofria muito já, olhava para mim de um jeito... Voltou ao hospital no domingo: fora uma trombose. Voltou para casa com poucas chances, no dia seguinte faria um ultrassom e talvez, quem sabe... Gabriel estava na casa do pai, ligamos para ele, contamos o que estava ocorrendo, ele trancou-se no banheiro para chorar e depois veio para casa, passou quase a noite toda ao lado do Gamarra, com medo de que ratos o viessem atacar. Fui trabalhar na segunda antes que o levassem para o hospital. Ainda pela manhã, veio o telefonema. Descanse em paz, camarada. Vamos sempre sentir sua falta. 30/6/1008 - 7/1/2008.
Renato não esperava isso de você, Gamarra
O Gamarra Morreu
 
Soube, por um telefonema na terça passada do passamento do Gamarra. Para quem não sabe,e muitos não sabem, o Gamarra é (era) o cão de guarda feroz que come (comia) baratas lá na Casa do Fernando, em substituição ao já comentado Golias que dividiu a casinha com Geo, quando este dedurou o Fernando, lá nos primeiros posts. O nome foi escolhido a dedo, pois se era para ser um cão de guarda, nada mais apropriado do que o nome do zagueiro paraguaio que tão bem guardava sua meta.
Tal canídeo, de raça mais ou menos boxer, era ao mesmo tempo um terror e um alívio. Terror orque cavava jardim, fazia necessidades em locais impróprios e latia para todas as pessoas que não precisava latir. Era também um alívio pois Fernando o levava para passear ( era o que ele achava) e nestes passeios pela vizinhança, habitualmente acompanhado de um neto ( ele tem vários) saiam ótimas histórias para nossas noites de terça.
O Gamarra era importante para o Grupo todos o conheciam, senão pessoalmente, por suas histórias.
Na verdade estou escrevendo para pedir desculpas ao Fernando. Na terça passada, ele me ligou para saber se não íamos voltar às nossas costumeiras orgias nos dias de Marte. Respondi que achava que ainda não e que outros ainda estavam viajando e que portanto só voltaríamos na próxima semana. Conversamos mais um pouco e ele me contou que Gamarra fizera a passagem.
Aí está o problema, não fui suficientemente sagaz para ir jantar com meu amigo e beber o Gamarra. Lamento, mas sem dúvida beberemos na próxima.
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